Segunda-feira, 29 de Março de 2004

Sushi Paradise

sushiparadise.jpg

Diário de viagem

Sushi Paradise, não o de Las Vegas, mas no passeio de Tóquio a dois quarteirões do hotel, é a tenda com o melhor rolinho de peixe e arroz que há sobre a terra. Um dedal de saquê e qualquer noite nipónica é uma antevisão do paraíso. Dispensam-se os cartões postais com néons da coca-cola e 'I love (coração) Tokyo'. Costeletas de porco preto temperadas com rosmaninho, batata nova frita e salada de tomate com cebola, ficam algures e nenhures a caminho do Sul, numa manhã fria de nevoeiro regada com vinho alentejano aquecido e duas chávenas de café bem forte a seguir a uma encharcada polvilhada de canela. Pretzels a queimar os dedos por cima dos guardanapos têm o carimbo das ruas de NYC, Frankfurt e Berlim. Em Londres transformam-se em peixe frito e french fries. Já as french toasts, versão de pão de ervas aromáticas, não são nada sem o maple syrup das garrafinhas das as vovós donaldas, saborosas primas das rabanadas em calda de açúcar.
Nas praias quentes a oriente o sarrabulho cobre-se de picantes e óleos, sarapatel de novo baptismo, para ensopar bolinhas de arroz branco, feitas e comidas com os dedos. A seguir, bolinhos de leite e doce de manga e iogurte, cerveja fresca e sesta sob o tronco de uma árvore. Arroz malandro, escuro, com coentros e grossos nacos de lampreia comem-se com vista para o Douro, vinho doce e verde, pão de ló húmido e charutos de fumo pesado a engolir ao mesmo tempo que um golo de Porto. Bolinhos de grão fritos à sexta-feira, à porta da mesquita, antes do estufado de carneiro com couscous e chá de hortelã, cachimbos de água e garrafas de refrigerante cor de cereja. Root beer, com piquinhos antes da carne de vaca grelhada com molho (de barbecue), starbucks com cafeína e natas com aroma de avelã, tarte de maçã com pimenta e canela aos sábados à tarde com os vizinhos. Gnocci e rúcula, fungi e orégãos, cinzano com um dedal de gim, canelonni verde e cimbalinos à napolitana. Em praias do Índico, chamuças estaladiças e pão de sura antes da matapa de mandioca e caranguejos do lodo. Chá mate sorvido da cabaça depois do rodízio com feijão preto e farofa. Pingos de tocha em Leiria, papos de anjo, trouxas de ovos e molotov, mousse de chocolate com nozes e doce de barricas de ovos de Aveiro. Caril de camarão e achar de manga com arroz branco, coco ralado e rodelas de banana. Maçãs caramelizadas e algodão doce, depois do bitoque com ovo a cavalo. Carne de búfalo seca e café gelado no land rover a caminho do Kruger Park. Nenhum diário de viagem fica completo sem a ementa escrita em papel de embrulho colada na lona do Sushi Paradise.
publicado por caloria fatal às 03:23
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Quarta-feira, 24 de Março de 2004

O café amarga

vicios012-copy.jpgEntrei no café, sentei-me na mesinha do canto, encomendei o pequeno-almoço: meia de leite, tosta e um rolinho de fiambre e queijo. O rapaz chegou com a bandeja e despejou o que eu devia, nos próximos minutos, permitir que entrasse no meu corpo: uma mistela amorfa numa chávena afogada em borras, pão de forma industrial espalmado entre duas chapas onduladas, meio carbonizado e vagamente pincelado com margarina, um raquítico crepe a respingar gordura e com ar de ter sobrevivido da véspera. Ainda levei o café com leite à boca, mas o travo desagradável de grãos queimados e de duvidosa proveniência foi a gota final. Levantei-me e chamei o responsável, um homem ainda jovem mas com ar de quem não dormia o suficiente. Perguntei-lhe se queria que pagasse e preenchesse uma das folhas com vários duplicados do livro de reclamações, ou se preferia que me fosse embora para nunca mais voltar. Foram momentos dramáticos, em que o homem lutou com todas as forças para contrariar a minha ideia de pequeno-almoço minimamente decente. Acabou por ceder, contrariado, mas receoso do que os outros clientes pudessem ouvir e pensar.
publicado por caloria fatal às 12:40
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Segunda-feira, 22 de Março de 2004

Carlos A.

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Carlos A. nasceu em Lisboa, nos anos 60, não se lembra dos tempos da velha senhora, nunca lhe prestou atenção. Mas lembra-se do primeiro restaurante a que a avó o levou.
"Sentei-me à frente dela, com as pernas a balouçar no ar. Pendurei o guardanapo na gola e fiquei, ansioso, à espera que nos trouxessem a comida."
- Ainda se lembra do que comeram?
"Claro. A minha avó sempre gostou muito de sopa, não havia refeição completa sem ela. Por isso começámos por uma sopa de cenoura com migas de broa. Ainda me lembro de olhar para os pedacinhos de pão a boiar no caldo e de sentir a boca a encher-se-me de água..."
- Isso foi a entrada?
"Não, não. Naquela altura comia-se a sopa primeiro, depois vinham as entradas. Naquele dia comemos queijo da Serra em pão de lenha, salada de polvo e azeitonas com alho. Eu, na altura, não bebia, claro. Mas a minha avó gostava de começar com o seu cinzano seco, com uma azeitona verde. Tinha por hábito dar-mo a provar e perguntava-me que tal o achava:"
- E que tal era?
"A princípio, terrível... Mas depois comecei a tomar-lhe o gosto, a perceber quando o cinzano valia a pena, quando era mais seco oi mais doce, se vinha suficientemente gelado. A minha avó gostava de azeitonas médias, nem pequenas, nem grandes, apenas o bastante para trincar e misturar o sabor com o da bebida. Era muito exigente com os pormenores e passou-me isso."
- A seguir, que comeram?
"Passámos para o bacalhau no forno. A minha avó era uma adepta incondicional do bacalhau. Trouxeram-nos aquelas postas altas, muito bem alouradas, com o azeite ainda a ferver, batatas novas, bastante alho e cebola. Nunca mais comi nenhum igual."
- Depois disso, que sobremesa?
"Sobremesa? (riso) Então e o segundo prato?"
- Está bem, está bem... E o que foi então?
"Chanfana à moda do norte. Posso garantir-lhe que estava um primor. Foi um almoço inesquecível."
- Mas não ficou por aí, pois não?
"Claro que não. A seguir comemos umas farófias que estavam de se lhe tirar o chapéu. Na fruta é que tivémos uma pequena divergência. A minha avó quis o ananás, mas eu preferi comer banana e queijo, com marmelada. Sempre gostei de marmelada."
- Foi um almoço e pêras!
"Claro. Que esperava? Era a minha estreia no restaurante. Essas coisas, lá em casa, tratam-se com todo o respeito."

(Série Carlos A. - Continua)
publicado por caloria fatal às 16:01
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Sexta-feira, 19 de Março de 2004

Primeiro grau zennocalórico

Preparar uma sobremesa extravagante, carregada de calorias, servi-la depois de um jantar bem farto e saboreá-la em deliciosas doses é o primeiro passo para se reconhecer as qualidades de um verdadeiro adepto da Caloria Zen.
Eis então a primeira proposta, para o Verão, claro, e para extreminar de vez os dolorosos regimes de sumos e saladas:
Prepara-se um singelo bolito com duas chávenas de farinha, uma de açúcar amarelo, uma de leite, quatro ovos inteiros, bastante canela (para escurecer q.b. a massa). Bate-se tudo até à exaustão e despejase numa forma untada com margarina e generosamente polvilhada com açúcar. Mete-se 45 minutos no forno previamente aquecido, a 200 graus.
Antes de lavar a taça, rape o fundo com os dedos, que se lambem até se ter por garantida a divina qualidade do preparado.
Ao lado, bate-se um quilo de natas, preparam-se gelatinas de diversas cores e sabores, cozem-se duas latas de leite condensado e lasca-se cerca de meio quilo de chocolate preto.
Agarra-se numa taça grande e deita-se uma camada de bolo cortado em cubos, pedaços de gelatina, natas, farpas de chocolate e doce de leite. Repetem-se as camadas pela mesma ordem, até à borda. Decora-se com bolacha maria esmagada na 1,2,3.
Leva-se a gelar pelo menos duas horas antes de servir, com café bem quente e, para quem aprecia bebidas mais fortes, cálices de amêndoa amarga com um farrapito de cinzano branco e seco.
Depois de umas fatias de presunto com melão, sopa de peixe com pão torrado, cabrito assado com batatinhas novas e uma salada de tomate e queijo fresco, se no dia a seguir a balança não acusar mais dois quilos e meio, está-se automaticamente convertido à DCZ (Doutrina Calórica Zen).
publicado por caloria fatal às 02:01
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Terça-feira, 16 de Março de 2004

Caloria Zen I

A Caloria Zen é uma antiga lei há muito esquecida. Pode ser assim resumida: segundo a Caloria Zen, tudo o que se come, bebe, saboreia, cozinha, oferece, ensina ou passa a outrém, com absoluto e descomplexado prazer, só contribui para o bem-estar psíquico e físico de quem a põe em prática. A Caloria Zen é um estado de alma que conduz ao mais perfeito estado de satisfação. Bem comer e beber ao abrigo da Caloria Zen é atingir o nirvana através do estômago sem depois ter de deitar mão de uma qualquer dieta fantástica e miraculosa para adquirir uma cintura de Barbie que nunca se teve.
Preparem-se pois, porque este blog é única e exclusivamente dedicado ao prazer da Caloria Zen.
publicado por caloria fatal às 13:39
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